Cante as benignidades do Senhor para sempre

O Salmo 89 nos apresenta uma poderosa declaração sobre a misericórdia e a fidelidade de Deus. Etã, o ezraíta, começa seu cântico decidido a proclamar para sempre as obras do Senhor, lembrando-nos de que fomos criados para louvor da Sua glória e chamados a tornar conhecida Sua fidelidade de geração em geração.

O título do Salmo 89 identifica seu autor como Etã, o ezraíta. Em 1 Reis 4:31 também encontramos um homem chamado Etã entre os sábios conhecidos em Israel, cuja sabedoria foi superada pela extraordinária sabedoria que Deus concedeu a Salomão. Tradicionalmente, muitos associam essas referências ao mesmo personagem, embora o ponto principal do salmo não esteja na fama de seu autor, mas na grandeza do Deus que ele adora.

Desde suas primeiras palavras, o salmista demonstra que seu coração está completamente voltado para o Senhor. Ele não começa falando de suas próprias realizações, de sua sabedoria ou de sua posição. Ele começa falando das benignidades do Senhor. Essa atitude deve chamar nossa atenção, porque toda verdadeira adoração coloca Deus no centro.

A Bíblia inteira aponta para a glória do Senhor. Quando lemos as Escrituras, encontramos relatos históricos, profecias, cânticos, provérbios, cartas e ensinamentos, mas em todos eles existe uma verdade constante: Deus é digno de ser conhecido, obedecido, amado e glorificado.

As benignidades do Senhor cantarei perpetuamente

O salmista declarou:

1 As benignidades do Senhor cantarei perpetuamente; com a minha boca manifestarei a tua fidelidade de geração em geração.

2 Pois disse eu: a tua benignidade será edificada para sempre; tu confirmarás a tua fidelidade até nos céus.

Salmos 89:1-2

A primeira expressão merece nossa atenção: “As benignidades do Senhor cantarei perpetuamente”. Etã não está falando de um louvor momentâneo. Não se trata de agradecer apenas durante um período favorável ou de adorar enquanto tudo acontece como esperamos. Sua declaração apresenta uma disposição permanente do coração.

Louvar perpetuamente significa reconhecer que Deus continuará sendo digno de adoração independentemente das mudanças que ocorram ao nosso redor. As circunstâncias podem mudar, nossa saúde pode mudar, nossa condição financeira pode mudar, pessoas podem entrar e sair de nossas vidas, mas o caráter de Deus permanece imutável.

Por isso, o louvor cristão não deve estar fundamentado apenas nas coisas que recebemos. Louvamos ao Senhor principalmente por aquilo que Ele é. Ele é santo, justo, misericordioso, verdadeiro, soberano e fiel. Quando compreendemos isso, nossa adoração ganha raízes muito mais profundas.

Um louvor que não depende das circunstâncias

Existem dias em que louvar parece fácil. Uma oração foi respondida, uma porta foi aberta, recebemos boas notícias ou experimentamos alguma bênção que desejávamos há muito tempo. Nessas ocasiões, nossa gratidão pode surgir espontaneamente. No entanto, a fé também é provada quando as circunstâncias não são favoráveis.

O verdadeiro adorador aprende a dizer: “Deus continua sendo bom”, mesmo quando ainda não consegue compreender aquilo que está acontecendo. Essa não é uma tentativa de negar a dor. Os próprios salmos mostram homens de Deus chorando, questionando, sofrendo e clamando. Porém, no meio dessas emoções, eles continuam olhando para o Senhor.

Essa atitude aparece em diferentes partes do livro dos Salmos. Há momentos em que o salmista precisa falar com sua própria alma e lembrá-la de continuar confiando. Por isso, a mensagem de “Espera em Deus, ó minha alma; pois ainda o louvarei” complementa muito bem o ensino do Salmo 89. O louvor não desaparece quando chega a aflição; ele pode tornar-se uma poderosa confissão de confiança.

Quando adoramos em tempos difíceis, estamos reconhecendo que nossa esperança está acima das circunstâncias presentes. Estamos dizendo que Deus é maior do que aquilo que conseguimos enxergar e que Sua fidelidade não desapareceu apenas porque ainda não entendemos Seus propósitos.

A fidelidade de Deus deve ser anunciada

Etã continua dizendo: “com a minha boca manifestarei a tua fidelidade de geração em geração”. Aqui encontramos outro elemento fundamental da vida cristã. A fidelidade de Deus não deveria ser apenas conhecida silenciosamente; ela deve ser anunciada.

O salmista usa aquilo que possui — sua própria boca — para contar aos outros quem Deus é. Esse princípio continua válido para nós. Podemos falar aos nossos filhos, familiares, amigos, irmãos da igreja e às pessoas que encontramos sobre aquilo que o Senhor tem realizado.

Não precisamos inventar histórias impressionantes. Muitas vezes, basta contar como Deus nos sustentou, como Sua Palavra nos corrigiu, como nos fortaleceu durante uma prova ou como nos trouxe de volta quando nosso coração começou a se afastar.

Testemunhar da fidelidade de Deus é transmitir memória espiritual. Uma geração fala à seguinte sobre quem é o Senhor. Pais ensinam seus filhos, líderes instruem os mais jovens, cristãos maduros fortalecem aqueles que estão começando sua caminhada e toda a igreja preserva a mensagem da Palavra de Deus.

De geração em geração

A expressão “de geração em geração” possui grande profundidade. Etã não desejava que o conhecimento da fidelidade divina terminasse com ele. Seu propósito era que outros também soubessem quem é o Senhor.

Essa responsabilidade continua existindo hoje. Cada geração de cristãos recebe o privilégio e a responsabilidade de transmitir a verdade bíblica à próxima. Não podemos pressupor que nossos filhos conhecerão automaticamente a Palavra de Deus. É necessário ensiná-los.

Eles precisam ouvir sobre a criação, a queda, as promessas de Deus, a história de Israel, os profetas, a encarnação de Cristo, Sua morte, Sua ressurreição e a esperança eterna do evangelho. Precisam aprender que a fé cristã não está construída sobre emoções passageiras, mas sobre a verdade revelada por Deus.

Quando contamos a próxima geração sobre o Senhor, fazemos exatamente aquilo que Etã desejava realizar: manifestamos Sua fidelidade. Assim, a adoração deixa de ser somente uma experiência individual e passa a produzir frutos que podem alcançar muitas outras pessoas.

A misericórdia de Deus permanece para sempre

No segundo versículo, Etã declara: “a tua benignidade será edificada para sempre”. Que expressão maravilhosa. Tudo ao nosso redor parece marcado pela transitoriedade. Impérios surgem e desaparecem. Gerações vêm e vão. Construções envelhecem. Riquezas podem desaparecer. O próprio corpo humano perde sua força com o passar dos anos.

Mas a misericórdia do Senhor não possui prazo de validade.

Sua benignidade não depende da instabilidade humana. Deus não muda de caráter de acordo com nossos dias bons ou ruins. Quando Ele estabelece Sua promessa, Seu caráter garante o cumprimento daquilo que prometeu.

É por isso que podemos olhar para a história bíblica e encontrar tantas demonstrações da fidelidade divina. Deus permaneceu fiel a Abraão, mesmo quando o cumprimento da promessa parecia distante. Sustentou Israel no deserto. Preservou Seu povo durante tempos extremamente difíceis e cumpriu, em Cristo, aquilo que havia prometido através dos profetas.

Quando contemplamos essa história, somos levados a fazer aquilo que outro salmo recomenda: louvar a memória da santidade de Deus. Recordar quem Deus é fortalece a fé, porque nos impede de construir nossa visão do Senhor apenas sobre aquilo que estamos sentindo no momento.

A fidelidade confirmada até nos céus

Etã acrescenta uma linguagem grandiosa: “tu confirmarás a tua fidelidade até nos céus”. A imagem aponta para algo firme, elevado e permanente. A fidelidade divina não está sujeita à fragilidade que caracteriza as promessas humanas.

Nós podemos prometer algo e, por diferentes razões, não conseguir cumprir. Às vezes faltam recursos, saúde, capacidade ou simplesmente mudamos de decisão. Deus, porém, possui poder absoluto para realizar tudo aquilo que corresponde à Sua vontade.

Ele não é surpreendido pelos acontecimentos. Nada aparece repentinamente diante dEle. Nenhuma circunstância pode frustrar Seus planos eternos. Por isso, quando Deus promete, podemos descansar em Seu caráter.

Isso não significa que receberemos tudo aquilo que desejamos. A fidelidade de Deus significa que Ele será fiel à Sua Palavra, à Sua natureza e aos Seus propósitos. Nossa segurança não está na ideia de que Deus fará tudo conforme nossos planos, mas na certeza de que Ele sempre fará aquilo que é santo, sábio e perfeito.

Nossa boca deve proclamar aquilo que nosso coração crê

Existe uma relação muito importante entre adoração e proclamação neste salmo. Etã crê na fidelidade de Deus e, por isso, deseja anunciá-la com sua boca. Aquilo que enche o coração naturalmente encontra expressão em nossas palavras.

Perguntemos a nós mesmos: sobre o que falamos com maior frequência? As pessoas que convivem conosco conseguem perceber através de nossas palavras que confiamos no Senhor? Nossos filhos escutam apenas nossas preocupações ou também ouvem nossas declarações de gratidão?

Não se trata de pronunciar frases religiosas a todo momento, mas de desenvolver um coração tão consciente da bondade divina que a gratidão passe a fazer parte de nossa maneira de viver.

Quando reconhecemos uma provisão, agradecemos. Quando observamos a criação, glorificamos o Criador. Quando recebemos forças durante uma prova, reconhecemos quem nos sustentou. Quando aprendemos algo na Palavra, compartilhamos essa verdade com outros.

Louvar também é lembrar

Muitos períodos de desânimo se tornam ainda mais difíceis porque esquecemos rapidamente aquilo que Deus já fez. O coração humano possui uma tendência impressionante de recordar problemas e esquecer misericórdias.

Por isso a Bíblia frequentemente chama o povo de Deus a lembrar. Israel deveria recordar sua libertação do Egito. Os salmistas recordavam as maravilhas realizadas pelo Senhor. A igreja recorda a obra de Cristo.

A memória espiritual funciona como combustível para a gratidão. Quando lembramos conscientemente da bondade de Deus, encontramos novos motivos para adorá-Lo.

Você consegue lembrar de momentos nos quais Deus sustentou sua vida? Talvez uma situação parecesse impossível, mas o Senhor lhe concedeu forças para continuar. Talvez você tenha atravessado um período de grande incerteza e hoje consegue olhar para trás e reconhecer que Deus estava conduzindo cada passo.

Essas lembranças não devem ocupar o lugar da Palavra, mas podem servir como testemunhos pessoais da providência do Senhor.

O louvor pertence ao Senhor

Existe uma importante diferença entre louvar a Deus e simplesmente buscar uma experiência emocional. A adoração bíblica possui um objeto definido: o próprio Deus.

Cantamos porque Ele é digno. Oramos porque dependemos dEle. Agradecemos porque reconhecemos Sua bondade. Ouvimos Sua Palavra porque reconhecemos Sua autoridade.

Por isso, o centro da adoração não deveria ser o adorador, mas aquele que é adorado. Essa verdade nos protege de transformar o louvor em mero entretenimento ou em uma busca constante por sensações.

O salmista não diz: “Cantarei porque quero sentir algo extraordinário”. Ele diz: “As benignidades do Senhor cantarei”. Seu louvor possui conteúdo. Ele canta sobre a misericórdia, a fidelidade e o caráter de Deus.

Esse princípio também aparece quando observamos que o nosso louvor deve vir do Senhor e ser proclamado na congregação. A verdadeira adoração nasce do reconhecimento daquilo que Deus revelou sobre Si mesmo e das obras que Ele realizou.

Uma vida inteira de adoração

Quando Etã afirma que cantará perpetuamente, suas palavras também nos levam a pensar além desta vida. O cristão não adora apenas durante alguns anos na terra. Nossa esperança aponta para uma eternidade na presença de Deus.

Aqui nossa adoração ainda acontece em meio a lágrimas, tentações, distrações e fraquezas. Há dias nos quais queremos cantar e outros nos quais precisamos lutar contra o desânimo para conseguir fazê-lo. Entretanto, esperamos o dia em que estaremos diante do Senhor sem pecado, sem dor e sem qualquer impedimento para contemplar Sua glória.

Essa esperança transforma nossa maneira de enxergar o presente. Cada culto, cada oração, cada cântico e cada momento de gratidão são pequenos antecipos de uma realidade muito maior.

O povo redimido de Deus foi chamado para adorá-Lo eternamente. Portanto, nossa vida atual deveria começar a refletir desde agora esse propósito.

Ensine sua família sobre a fidelidade de Deus

A frase “de geração em geração” também pode ser aplicada de maneira muito prática dentro de nossas casas. Falar da fidelidade do Senhor não deve ser uma tarefa exclusiva dos pregadores ou professores da igreja.

Pais cristãos possuem uma maravilhosa oportunidade de falar sobre Deus em situações comuns da vida. Ao receber o alimento, podemos agradecer. Quando enfrentamos uma dificuldade, podemos orar juntos. Quando uma oração é respondida, podemos recordar aos nossos filhos quem ouviu nosso clamor.

Também podemos ler a Bíblia com eles e explicar, de maneira apropriada para sua idade, aquilo que as Escrituras ensinam sobre Deus.

Essas pequenas práticas ajudam a construir uma memória espiritual. Anos depois, nossos filhos poderão recordar que cresceram ouvindo sobre um Deus fiel, santo, misericordioso e digno de adoração.

Continue proclamando a fidelidade do Senhor

Talvez hoje você esteja vivendo um dos melhores períodos de sua vida. Se for assim, louve ao Senhor e reconheça que todas as boas dádivas procedem dEle. Não permita que a prosperidade produza esquecimento.

Talvez, porém, você esteja enfrentando exatamente o contrário. Pode existir uma oração ainda sem resposta, uma preocupação familiar, uma dificuldade financeira ou alguma situação que você não consegue compreender.

Nesse caso, o Salmo 89 continua apresentando uma verdade capaz de sustentar sua fé: Deus permanece fiel.

Nossa visão é limitada ao momento presente, mas o Senhor conhece o princípio e o fim. Nós enxergamos uma pequena parte da história; Ele contempla todo o caminho. Por isso podemos descansar nEle mesmo quando ainda existem perguntas.

Não espere possuir todas as respostas para adorar. Etã nos ensina a colocar a fidelidade divina diante dos nossos olhos e proclamá-la com nossos lábios.

Conclusão: cantarei as misericórdias do Senhor para sempre

Os dois primeiros versículos do Salmo 89 apresentam um programa para toda a vida cristã: lembrar, cantar e anunciar a fidelidade de Deus. Etã contempla a benignidade do Senhor e decide que não permanecerá em silêncio.

Que possamos fazer a mesma declaração. Enquanto tivermos vida, falemos das misericórdias do Senhor. Enquanto tivermos voz, cantemos Sua bondade. Enquanto tivermos oportunidade, ensinem aos outros que existe um Deus fiel, poderoso, santo e misericordioso.

Que nossos familiares conheçam essa verdade através de nós. Que nossos filhos possam ouvi-la. Que nossos irmãos sejam fortalecidos por nosso testemunho e que aqueles que ainda não conhecem o Senhor escutem sobre Sua grandeza.

Não sabemos quantos anos teremos nesta terra, mas podemos decidir como queremos utilizá-los: proclamando a glória daquele que permanece fiel de geração em geração.

E quando as circunstâncias mudarem, quando chegarem dias de alegria ou períodos de prova, que nosso coração continue firmemente unido às palavras do salmista: “As benignidades do Senhor cantarei perpetuamente; com a minha boca manifestarei a tua fidelidade de geração em geração”.

Sim, o Senhor tem sido fiel. Sua misericórdia permanece, Sua Palavra não falha e Seu caráter não muda. Portanto, enquanto houver fôlego em nós, continuemos louvando, adorando e proclamando o nome do nosso Deus.

Cantemos a Deus porque Ele fez maravilhas
Que nossos familiares louvem nosso Deus e reconheçam seu poder

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